3ª Bienal da Bahia / 31ª Bienal de SP

3ª Bienal da Bahia – 2014.

“O Caboclo dos Aflictos – São Jorge Elevador”

100 dias de ocupação na Igreja dos Aflitos:

JORNAL DOS 100 DIAS /
A ocupação da Igreja dos Aflitos por 100
dias aconteceu por conta das pessoas que
estiveram lá diariamente.
O que foi apresentado é algo que ainda
está em processo e tem como essência a
minha relação com a cidade, a história e
as pessoas daquele lugar. Tudo começa nos
Aflitos. Falo das relações com os vizinhos,
os amigos, os artistas, a praça, a cidade,
e claro, o Caboclo, a Cabocla e toda
a energia que vem da natureza sufocada e
intensa daquele ponto no centro da cidade.
Falo também da independência da Bahia, do
Brasil, dos conflitos da miscigenação brasileira,
da Baía de Todos os Santos e do
Dois de Julho.
Moro na Ladeira dos Aflitos, ao lado da
Igreja. O que acontece lá é uma intensa
conexão com o Caboclo dos Aflitos. A Igreja
fica no seu ponto principal de energia.
Junto com ele apresento minha vida e meu
processo de trabalho para o público durante
a ocupação. Faço parte da comunidade
paroquial e esse trabalho contou com a
cumplicidade do Padre Aderbal e todas as
pessoas que fazem parte da Igreja.
O Caboclo se conecta comigo desde 2011,
quando me mudei pra lá. Mesmo com a igreja
fechada, antes de começar a reforma
da parte estrutural, já fazia parte desse
campo de encontros e espaços performativos:
fiz os registros das ações de Zmário,
em 2012, que comemorou na praça seus 15
anos de performance e bodyarte. Lá também
estão os meninos do Outros Diversos,
a Casa de Batatinha e outros artistas que
potencializam esse encontro.
A performance mostra-se forte nas minhas
relações com a arte. Tudo se funde em necessidade,
ritual, superstição, fé e desejo
de comunicação e poesia. Mas Performance
na Bahia é Zmário, Tuti, Coletivo OSSO,
Biriba, Ieda, Tina, Roberta, Michele, Ricardo…
é com base neles que eu penso sobre
a performance e entendo meu processo.
Eles são minha inspiração para que eu possa
transitar entre a arte e a vida desenvolvendo
meu trabalho.
O eixo desse trabalho na Igreja dos Aflitos
foi a ação São Jorge Elevador onde, numa
espécie de partitura corporal de um segundo,
interpreto uma aparição do caboclo
guiado pelo sincretismo religioso baseado
nos símbolos de São Jorge, São Sebastião
e Oxóssi. Outros elementos, desenhos, performances,
fotografias, cachaças etc., foram
desenvolvidas durante a ocupação na Igreja.
Durante esses 100 dias, saí com Gabriel
Guerra para registrar essa ação em 100 lugares
da cidade de Salvador. Os bairros,
ruas e apelidos de ruas, foram escolhidos
juntamente com o público no primeiro mês.
A Igreja fica ao lado de minha casa, por
isso mantive minha rotina de sempre, como a
relação com as borboletas. Não poderia prever
antes de começar a ocupação, mas elas
vieram e muitas nasceram dentro da Igreja,
como acontece em minha casa. A aquarela
Musa Cabocla, que participou da exposição
“tropicalidades” (PEBA) no Palacete das Artes,
surgiu de uma performance com poesias
de Waly Salomão e elepês de Gal na Praça
dos Aflitos. Outras ações aconteceram como
Lua de São Jorge, Beiju pra Deus (da série
QuiZera), oferenda na janela para a cabocla,
infusão de cachaça, caboquismo nas capas
de discos, aparições do Caboclo, mostra
Hibiscus com o coletivo MiZera etc.
São várias histórias e muitas aprendi ali, com
cada um que trazia uma referência, uma lembrança,
um presente… muita troca de energia.
Durante a ocupação, desenvolvi o projeto
Casa de Caboclo para a 31ª Bienal de São
Paulo; desenhos, fotografias e vídeos foram
produzidos nesse contexto. Fui à Lagoa do
Abaeté agradecer e pedir licença para levar
o Caboclo dos Aflitos para fora da Bahia
pela primeira vez.
No dia 6 de setembro, abertura da Bienal
de São Paulo e último dia da Bienal da
Bahia, apresentei a performance ritual de
abertura que fiz com cachaça, caju, cravo
e canela e os elepês de Gal. Esse trabalho
faz parte da Bienal da Bahia também e sigo
com ela na Casa de Caboclo até dezembro na
Bienal de São Paulo…

São Paulo, 3 de outubro de 2014

BAHIA NO IBIRAPUERA
De que maneira seu projeto se aproxima de
Bahia no Ibirapuera, realizado por Lina Bo
em 1959, durante a 5ª Bienal de São Paulo?
Arthur Scovino – Minha percepção do mundo
mudou em 2001, quando pisei pela primeira
vez na Lagoa do Abaeté. Foi minha primeira
experiência espiritual e de profunda relação
com um lugar, uma cidade. Escolhi essa cidade
para viver há sete anos e tudo que penso
e faço parte de Salvador e das coisas da
Bahia. Acredito que Lina pensou em levar esse
arrebatamento ao Bahia no Ibirapuera. Lá estavam
as coisas efêmeras da vida e da arte
na Bahia. Os objetos de arte que promoviam
relações com as pessoas, a relação do homem
com a natureza e a energia que vem dela.
Nesse projeto eu trago o espírito de tudo
isso. Trago minhas referências, as ervas, os
cheiros, objetos de performances de artistas
e amigos, a Escola de Belas Artes, o Solar
do Unhão, a Bienal da Bahia. É uma conversa
universal, mas que parte dali, dos Aflitos,
do Terreiro de Jesus e de todos os Caboclos.
De que modo essa mudança de perspectiva (de
Salvador para São Paulo) afeta o projeto
Casa de Caboclo?
Arthur – Desde que comecei a participar de
mostras e exposições, estive presente não importa
se em performance ou pintura. Na Bahia
já estava acostumado com as pessoas. As relações
com o público nasceram de minha experiência
com as pessoas e a cidade. Agora experimento
esse trabalho pela primeira vez fora
da Bahia. Independentemente do contexto, da
importância de São Paulo e da Bienal, estou
concentrado nisso. Estou ainda no primeiro
mês de processo, de encontros, e já sinto as
transformações. São Paulo tem uma visão ampla
do conceito de brasilidade e o nordeste está
longe e perto ao mesmo tempo. É o que consigo
dizer por enquanto. Lá no Abaeté eu agradeci e
pedi licença para trazer o Caboclo dos Aflitos
para São Paulo. Percebi aqui que a essência
desse trabalho está em harmonia com os desejos
e anseios universais e não somente com a
Bahia. Ela é o ponto de partida.
Você acredita que essa passagem, de uma cidade
a outra, implica em uma reencenação da Casa de
Caboclo? Como ela é a mesma, e ainda diferente,
nessa passagem de um lugar a outro?
Arthur – A casa do Caboclo (dos Aflitos) é na
Bahia. Esse título, Casa de Caboclo, é uma
metáfora para conduzir o trabalho e enfatizar
a presença do Caboclo ali. Na verdade
são vários Caboclos. Foi pensando nesse
momento em que eu saio da Bahia com esse
projeto que pensei em juntar as referências
da casa da minha infância no Rio de Janeiro
com a casa onde moro nos Aflitos. Os objetos,
as coisas que mudam de lugar e que
estão expostas e transformadas a cada dia.
Penso em nossos ancestrais, na história da
independência da Bahia e do Brasil, em nossa
vida atual marcada por essas crenças e sentimentos
influenciados por esse espírito que
vem da floresta se comunicar com os homens
da cidade. Por estar fora da Bahia, criei
uma instalação com vários símbolos e objetos
que acionam essas histórias e sensações
em forma de encontros, rituais, performances.
A Casa de Caboclo é uma obra que pode
ser apresentada em qualquer lugar do mundo
onde seja interessante discutir a história
da mestiçagem, fé e cultura brasileira com
seus conflitos e suas delícias.

Extraído do Catálogo da 3ª Bienal da Bahia :

registros diários no facebook:  www.facebook.com/ocaboclodosaflitos

http://bienaldabahia2014.com.br/wp/blog/2014/09/15/caboclo-dos-aflitos/

scovino - caboclo borboleta

autorretrato de celular com crisálida na Igreja dos Aflitos

scovino e Jomard Muniz de Britto

papo caboclo com Jomard Muniz de Britto

scovino - cachaça de caboclo

Cachaça de Caboclo. Foto: Andreia Oliveira

Scovino - Caboclo dos Aflictos - São Jorge Elevador . Bienal da Bahia 2014

foto: Gabriel Guerra

“Um minuto apenas” foto: Kitamura Yrosuke

Video QuiZera – performance de abertura no Mosteiro de São Bento em Salvador exibido na Bienal de São Paulo:

Video “Caboclo dos Aflictos – São Jorge Elevador”

31ª Bienal de São Paulo / “Casa de Caboclo”

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Scovino - Aparições do Caboclo -

Scovino – Aparições do Caboclo – “QuiZera”. Foto: Pedro Ivo Trasferetti / Fundação Bienal de São Paulo

Rito - Lua cheia / percevejo verde. foto: Rafael Amambahy

Rito – Lua cheia / percevejo verde. foto: Rafael Amambahy  – 31ª Bienal de São Paulo

31BSP bienal de são paulo - Performance de Arthur Scovino

“Caboclo Pena Rosa” (instalação / performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - arthur scovino bienal de são paulo

“Caboclo dos Aflitos” (performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Obras scovino performance bienal sp

“Sala do Oráculo” (instalação / performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Performance de Arthur Scovino

“Sala do Oráculo” (instalação / performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - caju performance scovino bienal de são paulo

“Ritual de abertura / caju” (performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - scovino performance bienal sp

“QuiZera” (performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

Cachaça Gabriela (objeto) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

Cachaça Gabriela (objeto) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

“Levando os elepês de Gal para passear” (performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

“Menino Jesus do Abaeté” (objeto) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Obras

“Abaeté” (vídeo / instalação) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

“Recanto dos Aflitos” (fotografia / instalação) © Pedro Ivo Trasferetti / Fundação Bienal de São Paulo

“Nhanderudson” (fotografia) © Pedro Ivo Trasferetti / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Obras

“Cachaça de Caboclo” (instalação) © Pedro Ivo Trasferetti / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - arthur scovino bienal

“Recanto dos Aflitos” ( monotipia / objeto / instalação) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Obras scovino bienal de sp

“Caboclo Rei” (instalação) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Performance de Arthur Scovino

“Sala do Oráculo – Oráculo Oiticica” (instalação / objeto / performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Performance de Arthur Scovino

“Sala do Oráculo – Oráculo Oiticica” (instalação / objeto / performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Obras

“Sala do Oráculo – Oráculo Oiticica” (instalação / objeto / performance) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - scovino bienal sp maria bethânia

“Lanche Diva” (performance com Tiago Sant’Ana) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

31BSP - Obras

“Lanche Diva” (performance com Tiago Sant’Ana) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

scovino bienal de sp

“Judite e o Caboclo” (performance com Edu O.) foto: Felipe Vasconcelos

performance arthur scovino bienal sp são paulo

“Judite e o Caboclo” (performance com Edu O.) foto: Felipe Vasconcelos

“Dos Filhos de Gandhy que beijei no carnaval” (instalação) © Leo Eloy / Fundação Bienal de São Paulo

 

itinerânc

ia da 31ª Bienal de SP em Belo Horizonte e Cuiabá em 2015

2 de julho - exibição do filme - o caboclo do dois de julho - foto scovino 11755729_601597443313092_932395936342226864_n aparição Nhanderudson 2 Participação na Residenca Artistica Mutuca - Altamira BH. foto Alexandre Furcolin cartaz o caboclo do dois de julho oficina como criar coisas que nao existem - no palacio das artes - foto Taiane Costa oficina como criar coisas que nao existem . Alunos do Mais Educação  MMX de São Joaquim de Bicas - MG - foto Fernando Hermogenes (2) Perfotmance (re)corte com Raquel e Shima na Casa de Caboclo - Selfie Scovino Serie procurando Casa de Caboclo em Minas Gerais - Museu da Mutuca - Altamira MGperformance- ave maria - lagrimas cinzas , foto UiaraIMG_6193IMG_6199IMG_6493IMG_6504IMG_6552

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